Meus colegas de mestrado, muitos deles já amigos, costumam me chamar de nerd, com toda a justiça do mundo! O que não impede, contudo, que eu provoque de volta com algumas brincadeiras. Eis a última:
Soneto do Nerd
Oh Rui Barbosa, que me cede a voz,
vem afastar a multidão lá fora,
que sob as tochas vocifera há horas,
unindo as armas num perverso algoz.
Se em medo fujo à multidão feroz,
é por não ter-te ao lado, oh caro Górgias,
que me ensinastes tudo e justo agora
voltas à sombra do silêncio, a foz.
Seguem meu vulto com ardis olhares
ou altos muros minha fuga esconde?
Diz-me a verdade, mestre Jô Soares.
A dor das pernas faz sumir a fome...
O peito louco diminui os males...
Não trouxe o pôster da Fernanda Young!
Thursday, March 18, 2010
Wednesday, March 17, 2010
Seguem as mudanças
E seguem as mudanças deste lado de cá do mundo. Vou tentando manter o ritmo das criações e leituras.
Quanto àquelas, meu próximo livro vai em breve para o prelo e o seguinte, à altura da página 30. Resolvi engrenar também um livro infantil que andava um tanto parado e vou finalmente reunir o Júlio César para um formato publicável.
Quanto a estas, estou lendo alguns livros a tacape, como o de Lima Barreto, ao passo que também me delicio com João do Rio. O mais é pra pesquisa, foco que deve me exigir boa parte do tempo este ano.
Enfim, ainda um pouco sem tempo para me dedicar completamente aos meus blogs, mas com alguma felicidade, posto que devo ter bem mais tempo e logo. Deixo, como fogos de artifício, os primeiros versos do meu possivelmente primeiro livro infantil.
Sempre força e arte!
BITOCA (texto: guto leite; argumento: paula sabagga & guto leite)
Nas épocas mais remotas,
se não me falha a memória,
houve uma certa Bitoca
de quem lhes conto esta história.
Filha de um rei camarada
e de uma rainha amiga,
os seus castigos na infância
eram conversas “compriiiiidas”.
Aos poucos virou mocinha,
mas quem buscou alegria
no rostinho da princesa,
acabou tendo tristeza.
Parece que se sentia,
entre todas as amigas,
a princesinha mais feia
e também a mais sozinha.
Não sei se para animá-la
ou se estava planejado,
deram uma grande festa
pelo seu aniversário.
A louca Fada dos Beijos,
prima da Fada dos Dentes,
foi uma das convidadas,
era amiga dos parentes.
Notando que a princesinha
se encontrava cabisbaixa,
para vê-la sorridente
lançou nela sua mágica.
(e daí segue...)
Quanto àquelas, meu próximo livro vai em breve para o prelo e o seguinte, à altura da página 30. Resolvi engrenar também um livro infantil que andava um tanto parado e vou finalmente reunir o Júlio César para um formato publicável.
Quanto a estas, estou lendo alguns livros a tacape, como o de Lima Barreto, ao passo que também me delicio com João do Rio. O mais é pra pesquisa, foco que deve me exigir boa parte do tempo este ano.
Enfim, ainda um pouco sem tempo para me dedicar completamente aos meus blogs, mas com alguma felicidade, posto que devo ter bem mais tempo e logo. Deixo, como fogos de artifício, os primeiros versos do meu possivelmente primeiro livro infantil.
Sempre força e arte!
BITOCA (texto: guto leite; argumento: paula sabagga & guto leite)
Nas épocas mais remotas,
se não me falha a memória,
houve uma certa Bitoca
de quem lhes conto esta história.
Filha de um rei camarada
e de uma rainha amiga,
os seus castigos na infância
eram conversas “compriiiiidas”.
Aos poucos virou mocinha,
mas quem buscou alegria
no rostinho da princesa,
acabou tendo tristeza.
Parece que se sentia,
entre todas as amigas,
a princesinha mais feia
e também a mais sozinha.
Não sei se para animá-la
ou se estava planejado,
deram uma grande festa
pelo seu aniversário.
A louca Fada dos Beijos,
prima da Fada dos Dentes,
foi uma das convidadas,
era amiga dos parentes.
Notando que a princesinha
se encontrava cabisbaixa,
para vê-la sorridente
lançou nela sua mágica.
(e daí segue...)
Monday, March 15, 2010
poemas
Ainda entre caixas, carretos, o leva-e-trás das coisas físicas e imediatas, posto outro poema da velha guarda. Feliz porque a Flávia indaga se devo mudar. Feliz porque a Val leu, compartilhou e amou, amor de poeta vale cem czares. Só mudo quando algo puxa para onde vou, quando não há mais casa. Sou mineiro, por isso "terra" é a minha terceira palavra. Espero com as novas linhas, que ainda demoram a sair, decepcionar pouco os olhos de linho que me lêem. Talvez eu tenha achado um jeito novo. Talvez seja o mesmo novo de tantos outros. Ainda há espaço, com tudo, para os poemas de sempre. O tempo máximo e o nulo protegem as boas palavras.
parto
não importa o quanto eu sofra
não importa o quanto eu vença
não importa o quanto eu corra
a dança que mostre o vento
os passos que eu mate ou morra
não importam meus amores
o tempo desta sentença
não importam minhas cores
aquilo que eu tome ou roube
a filha o cofre ou a crença
não importa o quanto eu sinta
as mágoas da diferença
ou sem sentir que eu inveje
pela fibra posta em prova
que eu deseje quem morrer
não importam minhas glórias
a toga de bacharel
não importam minhas falhas
não importam meus cristais
não importa o quanto eu saiba
quantas casas decimais
não importa se na prensa
eu quase perder a mão
os dentes que me restarem
para sorrir amarelo
não importa que eu enfeite
a ponte para o castelo
sobre um rio de judeus
não importa que eu livre
do campo a foice o martelo
as medalhas na parede
nos nomes o medalhão
não importa que eu calce
a alpercata e a sede
que eu sinta a fome do chão
não importa que assegure
a permanência dos bens
não importa que eu procrie
não importa que eu recrie
as formas do bem dizer
não importa o quanto eu grite
não importa quanto sangue
minha mãe possa perder
tudo será destruído
tudo será redimido
no instante em que eu nascer
parto
não importa o quanto eu sofra
não importa o quanto eu vença
não importa o quanto eu corra
a dança que mostre o vento
os passos que eu mate ou morra
não importam meus amores
o tempo desta sentença
não importam minhas cores
aquilo que eu tome ou roube
a filha o cofre ou a crença
não importa o quanto eu sinta
as mágoas da diferença
ou sem sentir que eu inveje
pela fibra posta em prova
que eu deseje quem morrer
não importam minhas glórias
a toga de bacharel
não importam minhas falhas
não importam meus cristais
não importa o quanto eu saiba
quantas casas decimais
não importa se na prensa
eu quase perder a mão
os dentes que me restarem
para sorrir amarelo
não importa que eu enfeite
a ponte para o castelo
sobre um rio de judeus
não importa que eu livre
do campo a foice o martelo
as medalhas na parede
nos nomes o medalhão
não importa que eu calce
a alpercata e a sede
que eu sinta a fome do chão
não importa que assegure
a permanência dos bens
não importa que eu procrie
não importa que eu recrie
as formas do bem dizer
não importa o quanto eu grite
não importa quanto sangue
minha mãe possa perder
tudo será destruído
tudo será redimido
no instante em que eu nascer
Wednesday, March 10, 2010
um poema
Estou trabalhando num novo tipo de poética que contorna um pouco a particularidade do poema, por isso não tenho trazido tantos versos a este espaço. Vez ou outra, contudo, me aparecem alguns poemas antigos - antigos para mim, claro, novidade é necessidade da coisa, não da palavra - e é sempre bom voltar à velha forma de versar, conduzir o verbo por versos e estrofes. Segue um poema.(Como é bom poder dizer isso saindo do turbilhão que é para mim aquele outro jeito de escrever.)
ocaso
beijar-te os lábios
pele sempre nua
como luvas
saber que a palma
quando reclusa
é noturna
mas em vôo aberto
faz-te inquieta
ou segura
medir tuas pernas
pelos palmos
sol
saber o ângulo
exato
em que te acalmo
e o outro
que te nasce
por detrás da casa
para pôr-te depois
e além
saber-te as entradas
janelas e portas
falhas
entre as tábuas
onde guardas
a chave
do prazer
ter-te plena
para perder
muito
constantemente
até ver
de novo
teus lábios
aparentemente
ilesos
rebuscar
um jeito justo
de sofrer
ocaso
beijar-te os lábios
pele sempre nua
como luvas
saber que a palma
quando reclusa
é noturna
mas em vôo aberto
faz-te inquieta
ou segura
medir tuas pernas
pelos palmos
sol
saber o ângulo
exato
em que te acalmo
e o outro
que te nasce
por detrás da casa
para pôr-te depois
e além
saber-te as entradas
janelas e portas
falhas
entre as tábuas
onde guardas
a chave
do prazer
ter-te plena
para perder
muito
constantemente
até ver
de novo
teus lábios
aparentemente
ilesos
rebuscar
um jeito justo
de sofrer
Wednesday, March 3, 2010
Tempos de mudança
As ausências, aqui e no Trombone, estão bem justificadas. São tempos de mudança.
Antes fossem mudanças em larga escala - das quais continuamos necessitados -, mas estas são de pequeno espectro: família, casa, ano. Tudo bem, absolutas no plano individual, mesmo que pequenas para os outros.
Como somos o universo das nossas impressões, talvez as grandes mudanças individuais tenham algum revelo fora das gentes.
Trago dois portugueses para dizer por mim sobre estes tempos.
"O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio..."[...] (Álvaro de Campos)
"Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.
O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.
E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía." (Camões)
Antes fossem mudanças em larga escala - das quais continuamos necessitados -, mas estas são de pequeno espectro: família, casa, ano. Tudo bem, absolutas no plano individual, mesmo que pequenas para os outros.
Como somos o universo das nossas impressões, talvez as grandes mudanças individuais tenham algum revelo fora das gentes.
Trago dois portugueses para dizer por mim sobre estes tempos.
"O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio..."[...] (Álvaro de Campos)
"Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.
O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.
E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía." (Camões)
Wednesday, February 24, 2010
O Carnaval das Paródias
Já disse o Chico em entrevista: "comecei colocando outras letras nas canções que já existiam".
Antes de saber disso, eu já fazia um bom número de versões de poemas célebres pra treinar o pulso, as palavras que cabem, entender o ritmo dos poetas etc.
Como estou transcrevendo as minhas antigas agendas para o computador, achei uma dessas brincadeiras, dei uma afinada nos versos e envio como prova do que pode aparecer no carnaval das paródias. Muita poesia e humor a todos!
poema de sete fáceis
quando nasci um anjo gordo
desses que chamam diabo
disse vai carlos ser fuck na vida
as casas expiam os homens
que correm das mulheres
a tarde talvez fosse azul
não houvesse tantos enxofres
o Bond passa cheio de pernas
pernas pra quem te quero
pra que tanta perna meu deus pergunta o continuísta
porém o estúdio
não pergunta nada
o homem atrás das suíças
é sério simples e sofre
quase não conversa
tem muitos vários amigos
o homem atrás dos óculos e das suíças
meu eu por que me abandonaste
se sabias que eu não era eu
se sabias que eu era um rato
terra terra vasta terra
se eu me chamasse inglaterra
seria uma rima e seria uma solução
terra terra vasta terra
mais farsa é a minha nação
eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
é eu não devia mesmo te dizer
Antes de saber disso, eu já fazia um bom número de versões de poemas célebres pra treinar o pulso, as palavras que cabem, entender o ritmo dos poetas etc.
Como estou transcrevendo as minhas antigas agendas para o computador, achei uma dessas brincadeiras, dei uma afinada nos versos e envio como prova do que pode aparecer no carnaval das paródias. Muita poesia e humor a todos!
poema de sete fáceis
quando nasci um anjo gordo
desses que chamam diabo
disse vai carlos ser fuck na vida
as casas expiam os homens
que correm das mulheres
a tarde talvez fosse azul
não houvesse tantos enxofres
o Bond passa cheio de pernas
pernas pra quem te quero
pra que tanta perna meu deus pergunta o continuísta
porém o estúdio
não pergunta nada
o homem atrás das suíças
é sério simples e sofre
quase não conversa
tem muitos vários amigos
o homem atrás dos óculos e das suíças
meu eu por que me abandonaste
se sabias que eu não era eu
se sabias que eu era um rato
terra terra vasta terra
se eu me chamasse inglaterra
seria uma rima e seria uma solução
terra terra vasta terra
mais farsa é a minha nação
eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
é eu não devia mesmo te dizer
Monday, February 22, 2010
nosso silêncio diário
Terminado o conto (que rapidamente me lembrou dos esforços que faço para escrever prosa), volto em algumas reflexões sobre o silêncio.
Com as férias universitárias, as muitas obrigações em casa e minha mãe em viagem, tenho ficado longos intervalos de tempo em silêncio. Alguns dias sempre, às vezes uma semana, quando não ligam por engano, ou quando não tenho que trocar breves palavras com as funcionárias do supermercado.
Nesses momentos, minha voz vacila como se fosse possível errar e desaprender. Costuma sair baixa, grave, para dentro, e não raro ouço um "ahn?" como resposta. Talvez seja assim sempre. Só não o percebemos porque ficamos pouco sem falar, temos urgência do verbo. A voz, toda vez que se exibe no universo audível, rompe camadas densas de silêncio ao custo da força inteira da alma.
A voz ordinária é ausente de alma, por isso não faz força.
Nesses dias de silêncio, na verdade, tendo a falar comigo. Não alto, refletindo - penso que não preciso falar fora para escutar dentro, esse diálogo eu travo silenciosamente -, mas para sentir o pulso dos meus versos, de todos os textos que escrevo, diariamente.
Imagina a falta de jeito da minha boca, acostumada nos últimos dias a só dizer poesia, quando é solicitada a responder a uma fala de máquina: "tem cartão bom clube?"
Não. A única resposta possível.
Com as férias universitárias, as muitas obrigações em casa e minha mãe em viagem, tenho ficado longos intervalos de tempo em silêncio. Alguns dias sempre, às vezes uma semana, quando não ligam por engano, ou quando não tenho que trocar breves palavras com as funcionárias do supermercado.
Nesses momentos, minha voz vacila como se fosse possível errar e desaprender. Costuma sair baixa, grave, para dentro, e não raro ouço um "ahn?" como resposta. Talvez seja assim sempre. Só não o percebemos porque ficamos pouco sem falar, temos urgência do verbo. A voz, toda vez que se exibe no universo audível, rompe camadas densas de silêncio ao custo da força inteira da alma.
A voz ordinária é ausente de alma, por isso não faz força.
Nesses dias de silêncio, na verdade, tendo a falar comigo. Não alto, refletindo - penso que não preciso falar fora para escutar dentro, esse diálogo eu travo silenciosamente -, mas para sentir o pulso dos meus versos, de todos os textos que escrevo, diariamente.
Imagina a falta de jeito da minha boca, acostumada nos últimos dias a só dizer poesia, quando é solicitada a responder a uma fala de máquina: "tem cartão bom clube?"
Não. A única resposta possível.
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